Em dois anos, defesa do STF e aproximação com a sociedade são marcas da gestão Barroso

16 de outubro de 2025

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Ministro Luís Roberto Barroso durante última Sessão Plenária como presidente do STF 

Ministro atuou no CNJ pela redução da judicialização, extinção de 13 milhões de execuções fiscais e criação de exame nacional para magistratura; no STF, acervo de processos caiu 20% em relação à data da posse

O ministro Luís Roberto Barroso assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) com a missão de comandar a Corte no período de início de responsabilização pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos três poderes foram invadidas e destruídas. 

Em seu discurso de posse em setembro de 2023, Barroso defendeu os princípios democráticos, as instituições republicanas e a pacificação do país. “Acabar com os antagonismos artificialmente criados para nos dividir. Um país não é feito de nós e eles. Somos um só povo, no pluralismo das ideias, como é próprio de uma sociedade livre e aberta.” 

E completou: “A vida na democracia é a convivência civilizada dos que pensam diferente. E quem pensa diferente de mim não é meu inimigo, mas meu parceiro na construção de uma sociedade aberta, plural e democrática”. 

Mas, com o passar dos meses e com o avanço das investigações sobre uma tentativa de golpe de Estado, o Supremo continuou sob ataque de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, de parlamentares da oposição que ameaçam retirar atribuições da Corte e também do governo Donald Trump, que chegou a suspender o visto de entrada nos Estados Unidos da América de grande parte dos integrantes do STF e aplicou sanções financeiras ao ministro Alexandre de Moraes. 

As medidas levaram Barroso a fazer reiteradas defesas da atuação técnica e imparcial do Supremo, assegurando que todos os direitos dos investigados estavam sendo respeitados e com garantia da ampla defesa. E, pela primeira vez na história, o Supremo condenou um ex-presidente da República e generais de alta patente por tentarem destruir a democracia. O julgamento na Primeira Turma entendeu que Bolsonaro liderou uma organização criminal armada que atuou para dar um golpe de Estado e manter o ex-presidente no poder. Por ter papel de destaque no grupo, Bolsonaro foi condenado com a pena mais alta: 27 anos e três meses de prisão, mas cabe recurso. 

Outras pautas também tensionaram a relação entre Supremo e a política, especialmente com o Congresso. Sem uma definição do Legislativo, a Corte avançou e aprovou a definição de 40 gramas de maconha para distinguir usuário de traficantes, determinou a abertura de dezenas de investigações para apurar supostos desvios no uso de recursos de emendas parlamentares e aprovou, na ausência de regulação do Congresso, regras para retirada de conteúdo das redes sociais.   

Em outra frente, a gestão do ministro trouxe inovações que marcaram o Judiciário. Barroso costurou o pacto pela linguagem simples com objetivo de melhorar a comunicação com a sociedade e evitar a desinformação. A ideia é tornar as decisões mais acessíveis e evitar que sejam usadas para deturpar a atuação da Corte.

Ainda nessa linha, o Supremo lançou o serviço “Informação à Sociedade”, que faz um resumo, em linguagem simples e acessível, dos julgamentos, com os fatos relativos a cada processo, as questões jurídicas, os fundamentos da decisão, como foi a votação, o resultado do julgamento e as teses definidas. O STF também manteve um programa de aproximação com influenciadores e influenciadoras digitais que produzem os mais diversos tipos de conteúdo, para explicar o funcionamento do Supremo de perto.

Na gestão do Tribunal, Barroso levou o STF a registrar o menor acervo de processos desde 1993 – houve redução de 20,7% do acervo em relação à data da posse, passando de 23.540 para 18.674. No CNJ, houve atuação firme pela redução da judicialização, com parcerias com Procuradorias e a Advocacia-Geral da União, o que levou à extinção de 13 milhões de processos de execução fiscal pelo país.

O ministro também apoiou a criação e o aprimoramento de várias ferramentas de inteligência artificial nos tribunais do país, para permitir maior  eficiência da Justiça. No Supremo, a ferramenta batizada de Maria é a primeira que utiliza a inteligência artificial generativa, capaz de produzir conteúdos e elaboração de textos, que tem sido utilizada, principalmente, para elaborar resumos dos processos.  

Na área da sustentabilidade, para reduzir impactos ambientais, Barroso lançou o programa STF + Sustentável, que reúne uma série de iniciativas como eliminação do uso de garrafas pet no Tribunal, o plantio de mais de cinco mil árvores nas imediações da Corte, a coleta e a destinação correta de resíduos e o abastecimento dos veículos flex da frota do STF prioritariamente com etanol, além da construção de uma usina fotovoltaica para produção de energia solar. A ideia é adotar medidas que garantam a preservação do meio ambiente, como medidas de neutralização e equilíbrio de emissões de CO2. 

A Presidência também reformulou a Ouvidoria do STF, que, além das funções da Central do Cidadão, ganhou mais atribuições, e foi instituída a Ouvidoria da Mulher, que trata de manifestações e denúncias relacionadas ao gênero, à participação feminina e à violência contra a mulher. Também foram contratados 30 profissionais com deficiência para várias áreas do Tribunal. Entre eles, está Bruno Moura, o primeiro fotógrafo com síndrome de Down do STF e que foi autor de uma exposição de fotos da Corte. 

Sob a coordenação do ministro Barroso, o STF também bateu recorde de casos enviados para o Núcleo de Solução Consensual de Conflitos (Nusol), que debateu questões sensíveis, como regras de transparência para emendas parlamentares e o marco temporal para demarcação de terras indígenas.

“O STF decide algumas das questões mais divisivas da sociedade. Críticas a esse papel são legítimas e fazem parte do debate público democrático. Mas não custa lembrar que foi esse arranjo que permitiu ao país o mais longo período de estabilidade institucional de sua história republicana. Sem tortura, censura, desaparecidos ou fechamento do Congresso. Só quem não soube a sombra não reconhece a luz”, disse o presidente do STF.

Para Barroso, uma das medidas mais importantes realizadas no âmbito do CNJ foi o Exame Nacional de Magistratura. “Curiosamente, embora o STF tenha maior visibilidade, as principais políticas do Judiciário são traçadas e conduzidas pelo CNJ. A primeira e mais importante trouxe um choque de integridade e de qualidade. Foi criado o Exame Nacional de Magistratura (ENAM), ao qual todos os candidatos a juiz precisam se submeter. Cria-se um padrão nacional para a magistratura e eliminam-se os rumores de coisas erradas que aconteciam em alguns certames. Na mesma linha e para os mesmos fins, foi criado o Exame Nacional de Cartórios.”

O ministro também trabalhou diretamente para conseguir apoio da iniciativa privada a uma das medidas mais significativas nos últimos anos para tentar mudar o perfil da magistratura: o financiamento de bolsas de estudo para candidatos negros e indígenas que queiram ingressar na carreira.

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