Edição 237
“Produtividade do Judiciário em tempo de pandemia”, por Renata Gil
10 de maio de 2020
Renata Gil Juíza de Direito no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro

No mundo todo, o trabalho está sendo profundamente afetado pela pandemia do novo coronavírus. Além da ameaça à saúde pública, a covid-19 possui efeitos sociais, econômicos e impacta o cotidiano de milhões de trabalhadores. No momento em que os Poderes constitucionais estão desempenhando um papel decisivo, no Brasil, a Justiça conseguiu adaptar-se com celeridade para contribuir no combate, ajudando a salvar vidas.
A magistratura desempenha função essencial com responsabilidade para garantir os direitos individuais, coletivos e sociais e resolver os conflitos entre cidadãos, instituições e Estado. Desde o início do período de quarentena e do trabalho remoto, os números totais de todos os tribunais são superlativos: 1,8 milhão de sentenças e acórdãos, três milhões de decisões, 4,8 milhões de despachos, 73,6 milhões de movimentos realizados e o montante de R$ 237,4 milhões de penas pecuniárias revertidas para o combate ao covid-19. Do valor total, apenas as Justiças Estadual e do Trabalho são responsáveis por R$ 220,4 milhões, ou seja, quase 93%.
São inúmeros os exemplos de movimentos que já beneficiaram a população nos Tribunais de Justiça, como a liberação de dinheiro para a compra de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e aparelhos para casas de saúde, como o Hospital Geral de Boa Vista, em Roraima; além da garantia do fornecimento de água em Recife; medidas de proteção da população em situação de rua, que pode disseminar o vírus, em Goiânia; colação de grau antecipada de alunos de Medicina no Piauí; e até a garantia de transporte a profissionais da saúde em Cuiabá. A magistratura está preocupada com o ser humano e salvando vidas.
Em alguns casos, a Justiça do Trabalho pediu explicações a governos sobre a disponibilidade de EPIs, como máscaras e luvas, para profissionais de saúde envolvidos no combate à pandemia e aos trabalhadores mais expostos. Também foram solicitadas informações sobre o ressarcimento a enfermeiros que compram EPIs por conta própria, houve a aplicação de multas aos hospitais que não fornecem os equipamentos aos profissionais e o afastamento de profissionais do grupo de risco.
A Justiça vem cumprindo determinações para atender às crescentes demandas da população. Neste contexto, há de se ressaltar a importância do trabalho remoto e das videoconferências. Mesmo que a Justiça estadual ainda tenha plantões ordinários e extraordinários físicos, o uso da tecnologia dá celeridade aos processos neste que é um momento de protagonismo do Judiciário.
Assumimos a gravidade da crise e, atendendo às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, garantimos a saúde e segurança das equipes, mantendo serviços essenciais à população. As recomendações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) foram medidas racionais, amparadas em orientações médicas e científicas.
Sobre a recomendação do CNJ quanto ao sistema de Justiça Penal e socioeducativo, a magistratura tem proferido decisões com avaliações caso a caso, de forma imparcial e independente, com base na legislação. A pandemia do novo coronavírus impôs atenção redobrada à situação dos presídios em todos os Estados. Especialmente para a situação de indivíduos mais vulneráveis (como mães, portadores de deficiência e indígenas) ou que demandem prisões preventivas que resultem de crimes menos graves.
Hoje, estamos enfrentando uma crise global de saúde pública sem precedentes. Somente o tempo pode nos dizer o quão devastadora a doença será para a vida humana. É preciso, claro, colaboração e compreensão de todos para o momento excepcional que estamos vivendo. É expressivo o aumento dos pedidos urgentes que chegam aos tribunais a todo momento por causa da covid-19. É, portanto, imperativo que soluções continuem sendo debatidas e implementadas. Tudo para garantir a prestação da jurisdição e a saúde pública em primeiro lugar.
