De “Papagaio” a “Dom Quixote”

5 de outubro de 2021

Membro do Conselho Editorial/ Ministro aposentado do STJ

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Calouro na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em São Paulo, aos inícios de 1964, passei a ouvir a Rádio Marconi e logo a visitá-la com os colegas na Rua Líbero Badaró, perto da histórica Livraria Teixeira, parada obrigatória de todos nós, como o eram a Livraria Brasiliense, na Barão de Itapetininga, em que se caminhava ao lado dos bondes e ônibus, a Mestre Jou, a Livraria Kosmos, a Loja do Livro Italiano, a Confeitaria Vienense, as Lojas Mappin, com a primeira escada rolante que se viu em São Paulo…

A Rádio Marconi, pequena mas possante e com enorme audiência qualificada e irrequieta, constituía um marco na política nacional. Agitava de verdade, sempre, sem descanso, dia-a-dia, hora-a-hora, minuto-a-minuto. Nela ouvíamos as grandes vozes daquele tempo, das artes e da política nacional. Criticava “na veia” governantes e outros – ferreteando-os com epítetos que grudavam para não mais largar. Repercutia os líderes daquele tempo. João Goulart, Presidente, revivia Getúlio, “Pai dos Pobres”. Havia a eloquência de Leonel Brizola, de mover multidões e a encantar os estudantes de Direito, devotos do poder da palavra!

Conheci Orpheu Salles, bem humorado, na Rádio Marconi, com o apelido de “Papagaio”, que consta atribuído por Ademar de Barros… O microfone era sua arma. Batia de verdade. Falava sem parar. Acusava. Pregava, convicto de convencer as pedras da rua, venerando o getulismo, de cujo grupo político participara. Mas dava um jeito de pausar o microfone para conversar com todo o mundo, inclusive com os jovens estudantes que perambulavam pelos restos da “Paulicéia Desvairada”, que ainda era a “Terra da Garoa” e iam visitar a Rádio Marconi. 

Nos estúdios da Rádio Marconi estive algumas vezes, com colegas veteranos da Faculdade. A comunicação da época fa­zia-se ágil pelo rádio, pois jornais demoravam para fazer e circular – inclusive o semanário “Pasquim”, aguardado com ansiedade para ler Millôr Fernandes, Jaguar, Paulo Francis e tantos que moldavam as jovens mentes nos tempos da Bossa Nova, na Galeria Metrópole, no “João Sebastião Bar”, na Vila Buarque, Rua Major Sertório, perto da Faculdade da Maria Antônia, e onde houvesse um grupo de estudantes e alguém tocando violão!

Um dia não se ouviu a Rádio Marconi, silenciada nas primeiras ações de 1964. Orpheu Salles foi retirado do ar e do estúdio, quando lá estavam estudantes da Faculdade, entre eles, lembro-me bem, João Miguel, Presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto. Soubemos que foi preso e depois levado a um navio-prisão destinado a presos políticos.

Muito tempo passou. Anos e anos. Um dia, em Brasília, ressurgiu-me Orpheu Salles pilotando a Revista Justiça & Cidadania e a premiação com os troféus “Dom Quixote” e “Sancho Pança”. Apresentou o filho, Tiago, orgulho de prosseguimento da vida e da obra, e a valorosa equipe da Revista. 

Era o mesmo “Papagaio” de outrora, sob a penugem do tempo… Criativo, brilhante, cheio de ideias, de opiniões e de história. Trocamos saudades nas solenidades e almoços anuais de entrega dos prêmios e nas visitas a meu gabinete para a entrega da Revista, cumprindo o ritual de atenção pessoal do cioso jornalismo de todos os tempos. Nunca desertou do tratamento quase litúrgico que o respeito a meu cargo no Superior Tribunal de Justiça lhe inspirava. Chegou a justificar-se um dia pelo novo linguajar livre, beirando à irreverência, que a comunicação atual passou a impor, lastimando a interdição dos preciosos termos de joias da cultura. Contou-me histórias dos heroicos tempos. Vivemos o passado no presente. Quanta memória do antigo “Papagaio”, que sempre foi um valente “Dom Quixote”.

As velhas lembranças destinaram-me ambos os troféus, o “Dom Quixote” e o “Sancho Pança”, que perenizam Orpheu Salles, aqui em casa em São Paulo!